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  •  Línguas sem direita e esquerda

     Línguas sem direita e esquerda

    Línguas sem “Direita” ou “Esquerda”: O Povo Guugu Yimithirr

    Para a maioria dos falantes de línguas ocidentais, a identidade espacial é ego-cêntrica: algo está à minha direita, à minha esquerda, atrás de mim ou na minha frente.

    No entanto, no idioma Guugu Yimithirr (uma língua indígena da Austrália), os conceitos de “direita” e “esquerda” simplesmente não existem.

    • Orientação Absoluta: Os falantes descrevem a localização de tudo usando pontos cardeais absolutos (Norte, Sul, Leste, Oeste).
    • Impacto na Identidade e Cognição: Um falante de Guugu Yimithirr não diz “tenho uma dor na minha perna esquerda”, mas sim “tenho uma dor na minha perna do lado Sudoeste”.
    • O “GPS Humano”: Como resultado dessa exigência linguística constante, desde crianças os falantes dessa língua possuem uma bússola interna perfeita, sabendo exatamente onde fica o Norte mesmo dentro de uma sala fechada ou no escuro — uma habilidade cognitiva que nós não desenvolvemos porque a nossa língua não exige.

     

  • Personalidade bilíngue

    Personalidade bilíngue

    O efeito “Personalidade Bilíngue”

    A hipótese do relativismo linguístico (conhecida como Hipótese de Sapir-Whorf) sugere que a estrutura de um idioma afeta a forma como seus falantes percebem o mundo. Mas a psicologia moderna descobriu algo ainda mais curioso: pessoas fluentes em mais de uma língua frequentemente relatam mudar de personalidade ao trocar de idioma.

    • O Experimento: Estudos psicológicos com falantes bilíngues de espanhol e inglês revelaram que, ao responderem a testes de personalidade em inglês, os participantes se mostravam mais assertivos, extrovertidos e orientados a conquistas. Quando respondiam aos mesmos testes em espanhol, mostravam maior empatia, foco nas relações comunitárias e expressão emocional.
    • A Explicação: Mudar de língua ativa a “bagagem cultural” e os contextos sociais em que você aprendeu e usa aquele idioma, alterando sutilmente a forma como você se expressa e pensa sobre si mesmo.
  • LINGUAGEM E IDENTIDADE

    LINGUAGEM E IDENTIDADE

    Se alguém te fizesse uma pergunta como “o que você é?”? É provável que você respondesse algo como “Sou psicólogo”; “Engenheira”; “Músico”; “Poeta”; “Palhaça”; “Surfista”; “Artista”; “Swiftie”, “Crente”; “Travesti”; “Mãe”… “Eu sou um fardo”; “Eu sou um curioso”; “Eu sou feliz”. Com isso, você estaria expondo, isto é, pondo para fora, o que se passa dentro de você. Essa, que alguns linguistas podem chamar de emotiva ou expressiva, é uma das funções da linguagem, a de traduzir para o outro o nosso mundo interno. Acontece que dizer o que “eu” sou pode também dizer o que não sou, ou o que o outro é.  Por exemplo, se digo que sou de direita, estou dizendo que pertenço a um grupo de pessoas que pensam parecido comigo em termos políticos, ao mesmo tempo em que acabo comunicando que sou diferente das pessoas de esquerda. Se sou preto, não sou branco; se sou rei, não sou súdito; se sou talarico, não sou amigo; se sou padre, não sou casado (até onde se saiba…). Para cada “eu”, existe um “tu”, existe um “nós” e existe um “eles”. E, quando opomos essas palavras, essas categorias, quando nós as comparamos, além de produzirmos diferença, também produzimos identidade. Com essa palavra sendo tão falada, tão carregada de sentido e cada vez mais relevante nas discussões atuais e no fazer social e político, acaba sendo bastante útil e importante entender um pouquinho melhor dele. Assim, decidimos trazer para o nosso número de abertura uma exploração ampla, esclarecedora e instigante sobre como conversam identidade e linguagem, assim como a importância que cada uma tem para o fazer-se da outra.

    Imagine a seguinte cena: você está em uma festa, conhecendo novas pessoas e tentando se enturmar. Tudo vai bem até que alguém faz uma pergunta simples, do tipo “De onde você é?”. Essa pergunta aparentemente inocente pode criar um momento tenso, pois depende muito da sua resposta. Você poderia dizer algo como “Sou de São Paulo”, “Nasci no Rio de Janeiro, mas cresci em Curitiba” ou até mesmo “Minha família é de Belo Horizonte, mas eu me considero uma cidadã do mundo”. Cada uma dessas respostas transmite um aspecto diferente da sua identidade.

    A língua que usamos, o sotaque que carregamos e as expressões que escolhemos para nos comunicar estão intimamente ligados à nossa identidade. Quem somos, de onde viemos e como nos vemos no mundo são profundamente influenciados pela maneira como nos expressamos. É impressionante como algo tão simples quanto a forma de responder a uma pergunta aparentemente simples pode revelar tanto sobre nós. Mas afinal, por que a linguagem tem tanto poder sobre a nossa identidade? 

    Para responder à pergunta, é importante reconhecer que a língua não é apenas um conjunto de regras gramaticais e vocabulário. Ela é muito mais do que isso – a linguagem é a expressão viva e pulsante da nossa cultura, história e experiências. Cada palavra que pronunciamos, cada gíria que utilizamos e cada metáfora que empregamos carrega consigo uma riqueza de significados e referências que nos conectam a uma determinada comunidade.

    Imagine, por exemplo, alguém que nasceu e cresceu no sul do Brasil. Essa pessoa provavelmente usará expressões típicas da sua região, como “tchê”, “guris” e “chimarrão”. Essas palavras não apenas facilitam a comunicação dentro do seu círculo social, mas também ajudam a definir a sua identidade cultural. Elas são como um passaporte linguístico que a conecta a uma tradição, a um modo de ser e a uma forma de enxergar o mundo.

    Da mesma forma, um indivíduo que tenha crescido em uma família de origem indígena carregará em sua forma de se expressar os vestígios dessa raiz ancestral. Suas palavras, entonações e metáforas serão permeadas por uma visão de mundo única, que o ajuda a se reconhecer como parte integrante de uma comunidade específica.

    Mas a influência da linguagem na identidade vai além das particularidades regionais e culturais. Ela também se manifesta na maneira como nos expressamos em contextos sociais diferentes. A linguagem que utilizamos em cada situação reflete diferentes facetas da nossa personalidade.

    Ao ajustar nosso modo de falar de acordo com o contexto, estamos, na verdade, revelando quem somos e como nos enxergamos. Podemos adotar um registro mais formal e imponente para transmitir uma imagem de competência e seriedade profissional. Ou então, podemos nos expressar de maneira mais informal e descontraída para demonstrar proximidade e camaradagem entre amigos.

    Essa habilidade de adaptar nossa linguagem é um reflexo da nossa capacidade de assumir múltiplas identidades, de acordo com as demandas de cada situação. Somos capazes de moldar nossa expressão verbal para nos adequar a diferentes papéis sociais, sem, no entanto, perder nossa identidade. Mas faz sentido esse apego todo à identidade? Para o sociólogo britânico-jamaicano Stuart Hall (1932-2014), talvez não. A identidade, no mundo pós-moderno, não é fixa, essencial ou permanente: “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”. (Hall, 2006, p. 13).

    “a identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”

    é definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘narrativa do eu’. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”. (Hall, 2006, p. 13)

    Você já parou para pensar no quão reveladora pode ser a sua maneira de falar? O sotaque que carregamos diz muito sobre quem somos e de onde viemos. É impressionante como algo tão sutil quanto a entonação de uma palavra ou a pronúncia de uma vogal pode transmitir informações tão ricas sobre a nossa identidade.

    O Papel do Sotaque na Construção da Identidade

    Imagine, por exemplo, conhecer alguém que tem um sotaque de uma região específica do país. Talvez seja aquele “r” levemente arranhado do Sul, o “s” chiado do Nordeste ou o “e” aberto do Centro-Oeste. Cada um desses pequenos detalhes que compõem o seu modo de falar evoca uma imagem imediata da sua origem geográfica e cultural.

    Mas o sotaque vai muito além de apenas delatar de onde viemos. Ele também possui o poder de revelar nuances da nossa personalidade, dos nossos valores e até mesmo do nosso estado de espírito no momento da interação.

    Imagine, por exemplo, a diferença entre o modo de falar de alguém que nasceu e cresceu em uma grande metrópole, como São Paulo, versus uma pessoa que viveu a vida inteira em uma pequena cidade do interior. O primeiro provavelmente terá um sotaque mais acelerado, com palavras pronunciadas de forma mais firme e direta. Já o segundo, provavelmente, se expressará de forma mais pausada e suave, com um ar de tranquilidade e serenidade.

    Esses pequenos detalhes não são meras coincidências. Eles refletem traços da nossa personalidade, como o ritmo de vida, os valores culturais e até mesmo a nossa visão de mundo. Afinal, a maneira como nos expressamos vocalmente é fortemente influenciada pelo ambiente em que crescemos e pelas experiências que nos moldaram.

    Então, imagine a cena: você está em um evento social e conhece alguém novo. Assim que essa pessoa abre a boca, você já pode ter uma impressão inicial sobre ela. Será que ela parece ser uma pessoa mais formal e reservada, com um jeito contido e elegante? Ou talvez ela tenha um jeito mais descontraído e animado de falar, com um jeito alegre e espontâneo?

    Essas percepções iniciais, muitas vezes inconscientes, podem ser a “ponta do iceberg” quando se trata de como o sotaque influencia a nossa identidade. Elas nos dão pistas sobre a personalidade, os valores e até mesmo a classe social daquela pessoa, com base apenas na maneira como ela se expressa.

    Mas a relação entre sotaque e identidade não se resume apenas a impressões superficiais. Ela também desempenha um papel crucial na forma como nos vemos e como nos relacionamos com o mundo.

    Imagine, por exemplo, alguém que carrega um sotaque que é estigmatizado ou estereotipado em sua sociedade. Talvez seja um imigrante recém-chegado, com um forte sotaque estrangeiro, ou uma pessoa de uma região menos valorizada socialmente. Infelizmente, nesses casos, o sotaque pode se tornar uma barreira, levando a preconceitos, discriminação e até mesmo a uma crise de identidade.

    Diante disso, muitas vezes, essas pessoas se sentem pressionadas a “disfarçar” ou a “neutralizar” seu sotaque, na esperança de serem melhor aceitas e integradas. Mas, ao fazer isso, elas correm o risco de perder uma parte importante da sua essência, sentindo-se desconectadas da sua própria história e origem.

    Felizmente, há também muitas pessoas que escolhem abraçar e valorizar o seu sotaque como uma expressão autêntica da sua identidade. Elas entendem que o modo como falam é um reflexo valioso da sua diversidade cultural e, por isso, rejeitam a pressão para se “normalizar”.

    Afinal, o sotaque não é apenas um detalhe superficial da nossa expressão verbal. Ele é uma janela para a nossa alma, revelando aspectos íntimos da nossa história, da nossa personalidade e da nossa visão de mundo. Abraçá-lo, com orgulho e confiança, é um ato de afirmação da nossa identidade única e valiosa.

    Então, na próxima vez que você ouvir alguém falar, preste atenção ao seu sotaque. Deixe que ele te revele um pouco mais sobre quem aquela pessoa é e de onde ela vem. E quem sabe, você mesmo possa explorar a sua própria forma de falar, percebendo como ela reflete a sua identidade tão especial e singular.

    Implicações Sociais:

    Preconceito e Discriminação: Infelizmente, em muitas sociedades, certos sotaques são estigmatizados e associados a estereótipos negativos. Pessoas com sotaques “diferentes” do padrão dominante podem enfrentar julgamentos, tratamento desigual e até mesmo discriminação aberta em ambientes sociais.

    Integração e Aceitação: O sotaque pode ser visto como uma barreira para a integração plena de indivíduos em determinados grupos ou comunidades. Aqueles com sotaques marcantes podem encontrar dificuldades em serem plenamente aceitos e incluídos, gerando um sentimento de marginalização.

    Autoimagem e Autoestima: A pressão social para “corrigir” ou “disfarçar” o sotaque pode levar a problemas de autoimagem e baixa autoestima. Algumas pessoas podem se sentir envergonhadas ou inseguras com a sua forma de falar, o que impacta negativamente a sua percepção de si mesmas.

    Isolamento Social: Em casos extremos, o sotaque pode levar ao isolamento social, especialmente quando a pessoa se sente rejeitada ou incompreendida por sua comunidade. Isso pode afetar seus vínculos sociais, sua rede de apoio e seu bem-estar geral.

    Implicações Profissionais:

    Oportunidades de Emprego: Algumas empresas e setores profissionais ainda possuem preconceitos relacionados a sotaques, o que pode prejudicar as chances de emprego de indivíduos com fortes marcas regionais ou estrangeiras em sua fala. Eles podem ser vistos como menos qualificados ou menos adequados para determinadas funções.

    Progressão de Carreira: O sotaque também pode ser um obstáculo para a progressão profissional. Pessoas com sotaques considerados “inadequados” podem encontrar dificuldades em ascender a cargos de liderança ou em obter promoções, independentemente de suas habilidades e qualificações.

    Percepção de Competência: Infelizmente, alguns estereótipos associam determinados sotaques a níveis inferiores de educação, inteligência ou competência. Isso pode levar a julgamentos equivocados sobre as capacidades reais dos profissionais, limitando suas oportunidades.

    Comunicação Efetiva: Em certas profissões que envolvem comunicação constante, como atendimento ao cliente, telemarketing ou apresentações públicas, o sotaque pode ser visto como um desafio. Há a preocupação de que um sotaque acentuado possa dificultar a compreensão e a conexão com o público.

    É importante ressaltar que essas implicações sociais e profissionais resultam, em grande parte, de preconceitos e estereótipos enraizados na sociedade. Entretanto, é possível combater essa realidade por meio da conscientização, da valorização da diversidade linguística e da criação de ambientes mais inclusivos e tolerantes.

    Alguns passos importantes nessa direção incluem:

    Promover a conscientização sobre os impactos negativos do preconceito relacionado ao sotaque

    Incentivar a aceitação e o respeito pelas diferentes formas de expressão

    Implementar políticas organizacionais que valorizem a diversidade linguística

    Oferecer treinamentos e orientações sobre comunicação intercultural efetiva

    Encorajar as pessoas a abraçarem e se orgulharem do seu modo único de falar

    Ao adotar essas medidas, podemos construir uma sociedade mais justa e inclusiva, onde o sotaque seja celebrado como uma expressão autêntica da identidade, e não como um obstáculo a ser superado. Afinal, a riqueza da nossa diversidade linguística é um verdadeiro patrimônio que merece ser valorizado e preservado.

    Lidar com preconceitos relacionados ao sotaque pode ser um desafio, mas existem algumas estratégias que as pessoas podem adotar para enfrentá-los de maneira eficaz:

    Autoconhecimento e Autoestima:

    Entender a própria história e o significado do seu sotaque, valorizando-o como parte da sua identidade.

    Cultivar uma sólida autoestima, de modo a não se deixar abalar por julgamentos externos.

    Evitar a tentação de “mascarar” o sotaque, pois isso pode comprometer a autenticidade.

    Educação e Conscientização:

    Procurar informar-se sobre os impactos sociais e profissionais dos preconceitos com relação ao sotaque.

    Compartilhar esse conhecimento com familiares, amigos e colegas, a fim de promover a compreensão.

    Participar de iniciativas que visem combater estereótipos e promover a diversidade linguística.

    Assertividade e Resiliência:

    Desenvolver habilidades de comunicação assertiva para lidar com situações de preconceito.

    Aprender a se posicionar de maneira firme, mas respeitosa, quando confrontado com comentários discriminatórios.

    Cultivar a resiliência para não se deixar abalar por eventuais reações negativas.

    Empatia e Conexão Humana:

    Buscar estabelecer conexões genuínas com as pessoas, indo além das aparências e dos estereótipos.

    Valorizar a comunicação clara e autêntica, independentemente do sotaque.

    Demonstrar compreensão e abertura para as diferenças linguísticas.

    Formação Profissional e Networking:

    Investir em treinamentos de comunicação intercultural e habilidades de apresentação.

    Construir uma rede de contatos profissionais que valorize a diversidade.

    Buscar oportunidades em ambientes que sejam mais inclusivos e receptivos à diferença.

    Advocacia e Ação Coletiva:

    Participar de grupos e movimentos que promovam a valorização dos diferentes sotaques.

    Engajar-se em campanhas e iniciativas de conscientização sobre o tema.

    Pressionar instituições e organizações para adotarem políticas antidiscriminatórias.

    É importante lembrar que lidar com preconceitos relacionados ao sotaque não é uma tarefa fácil, mas é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Ao adotar essas estratégias, as pessoas podem não apenas fortalecer a sua própria autoestima, mas também contribuir para a transformação de atitudes e práticas discriminatórias.

    Afinal, a diversidade linguística é um patrimônio precioso que deve ser celebrado e respeitado. Ao darmos voz a essa riqueza, estamos valorizando a autenticidade e a singularidade de cada indivíduo, enriquecendo assim o tecido social como um todo.

  • Os diferentes critérios utilizados para classificação de palavras nas gramáticas tradicionais

    O artigo produzido por Natália Sousa Lopes e Laryssa Nunes Moura, ambas, na época, graduandas em Letras – Português/Espanhol pela Universidade Federal do Ceará (UFC), apresenta os critérios utilizados para a classificação das palavras, tendo em vista, a análise de quatro gramáticas tradicionais. Publicado em 2012, o artigo já foi acessado 6.209 vezes, o que mostra o interesse pelo velho tema da classificação vocabular.

    As autoras traçam uma linha do tempo da formação das classes gramaticais, a qual vai desde a antiguidade com os estudos de filósofos, como Platão e Aristóteles, até a contemporaneidade com os estudos de professores como Camara Jr. e Perini. Além disso, discutem a problemática das dez classes gramaticais propostas pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), pois, segundo Perini (1996), não trazem conceitos claros e objetivos.

    Na pesquisa, foram aplicados os critérios para classificação das palavras (semântico, formal, funcional, distribucional ou a combinação destes) às quatro gramáticas tradicionais: Nova gramática do português contemporâneo (CUNHA e CINTRA, 2008); Gramática da língua portuguesa (CIPRO NETO e INFANTE, 2003); Novíssima Gramática da Língua portuguesa (CEGALA, 1997) e Gramática & Literatura (TERRA e NICOLA, 2000). O resultado da análise foi uma maior utilização do critério semântico que, aplicado de maneira isolada, não demonstra ser efetivo.

    Podemos observar que o critério semântico não é considerado por estudiosos e linguistas o mais adequado, pois traz conceitos vagos como “nomeia os seres” para substantivo, não sendo satisfatório para a compreensão de estudiosos da língua portuguesa  (Lopes; Moura, 2012, p.55).

    O objetivo da pesquisa foi deixar evidente a importância da compreensão dos critérios utilizados pelas gramáticas tradicionais para a classificação das palavras, pois critérios de classificação claros auxiliariam alunos da educação básica a terem mais facilidade de compreender a língua portuguesa.

    Serviço

    Artigo integral: Os diferentes critérios utilizados para classificação de palavras nas gramáticas tradicionais

    Outros artigos sobre classes gramaticais

  • Como nossa forma de falar revela quem somos: linguista Raquel Freitag desvenda relação entre linguagem e identidade

    Raquel Freitag é uma das principais sociolinguistas do Brasil. Professora titular do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade de Sergipe (UFS), é graduada em Letras, mestra e doutora em Linguística pela Universidade Federal de Sergipe, com formação complementar pela Universidade Federal de Santa Catarina.

    Freitag é reconhecida por sua abordagem crítica aos métodos tradicionais da sociolinguística brasileira e por defender uma ciência mais inclusiva e socialmente engajada.

    Entrevista

    Revista ECOS: Identidade é uma palavra que se vê muito por aí e são muitas as definições possíveis. Nos seus estudos, quais conceitos têm-se demonstrado mais úteis?

    Raquel Freitag: Uma perspectiva de identidade é a que parte da cognição social, um ramo da psicologia social, mas que é subjacente a outros domínios, como o da sociolinguística. A cognição social é um conjunto de processos que guiam o modo como as pessoas se relacionam com outras pessoas no mundo: como as pessoas percebem outras pessoas, o que envolve os comportamentos e as emoções. As experiências decorrentes dos processos de cognição social são organizadas por meio da categorização. 

    A organização das informações a que temos contato se dá por agrupamentos, por semelhanças, parciais ou totais, em categorias. Esse processo de categorização é essencial na automatização do processamento de informação e na tomada de decisões rápidas. Por meio da cognição social, a categorização pode envolver a formação de estereótipos e a classificação de pessoas com base em características percebidas. Uma das fontes de traços para categorizar as pessoas é a língua. Só de ouvir uma pessoa, com base nas informações categorizadas decorrentes de nossas interações sociais, conseguimos predizer com boa chance de acerto qual é a idade da pessoa, seu gênero ou de onde vem. Por exemplo, grande parte de nossas experiências de interação social convergem para a formação de um estereótipo entre voz aguda e gênero feminino. Ou voz grave e gênero masculino. Essa associação é decorrente das experiências associativas, e gera automaticamente um estereótipo, uma maneira mais eficiente de processar informações sociais. No entanto, isso pode levar a generalizações excessivas e estereótipos, influenciando a maneira como as pessoas percebem e interagem umas com as outras, a ponto de levar a julgamentos automáticos: porque tem voz aguda é mulher, ou porque tem voz grave é homem. Em princípio, estereótipos não são negativos; são, ao contrário, uma estratégia de automatizar a identificação. Mas partir do momento que atribuímos nome a uma entidade e a inserimos em uma determinada categoria, estamos atribuindo valores positivos ou negativos e definindo seu lugar em escalas hierárquicas.

    A categorização atua fortemente na formação da nossa consciência sociolinguística: diferentes variedades linguísticas (dialetos, sotaques, jargões) podem ser categorizadas e associadas a diferentes grupos sociais. Essa categorização das variedades linguísticas não depende de instrução explícita, como uma regra de gramática a ser estudada, mas é resultado da nossa experiência e exposição às diferentes variedades, constituindo nosso repertório dialetal. Por exemplo, a aspiração de /v/ (esta[v]a ~ esta[h]a) é um traço dialetal que é associado a lugares específicos do Brasil, como Fortaleza, mas exclusivamente, também ocorre em outras regiões do Nordeste. Um estudo com pessoas de Fortaleza mostrou que este traço é percebido como um traço de pertencimento à comunidade, em um perfil social específico, de pessoas com menos escolarização, sendo um traço estigmatizado. 

    A forma como a pessoa fala pode ser categorizada de maneira que impacta sua percepção social e identidade pessoal. Então, a estereotipia da categorização pode fazer que uma pessoa, só porque fez uma realização aspirada em uma palavra, como esta[h]a, seja categorizada como com menos escolarizada, e daí em diante, outras categorizações continuam sendo ativadas: pouca escolarização pode denotar menos capacidade e o julgamento de menos capacidade pode limitar as oportunidades que essa pessoa poderia ter.

    A categorização afeta o modo como as pessoas expressam suas identidades e interpretam as identidades de outras pessoas. O modo como falamos dá pistas de nossa indexação social e influencia como somos percebidos pelas outras pessoas. A identidade linguística pode ocorrer no nível individual – uma pessoa pode ser categorizada e avaliada com base em sua identidade linguística, o que influencia a cognição social e pode reforçar ou desafiar estereótipos – , ou no nível do grupo – a identidade linguística de um grupo pode influenciar a maneira como este grupo é categorizado socialmente, afetando as interações sociais e a dinâmica de poder dentro de uma sociedade. Por exemplo, uma variedade linguística do Nordeste em confronto com uma variedade do Sudeste.

    É, então, pela língua que constituímos nossa identidade na dinâmica das interações sociais.

    Revista ECOS: E o que ou quem de fato determina qual a identidade de alguém? Seria a própria pessoa? O grupo ao qual pertence? O seu comportamento?

    Raquel Freitag: Embora a categorização seja um processo extremamente produtivo e automático, não é simplista ou direto, depende do contexto. Por isso, as identidades não são pré-definidas e tão automáticas quanto gostaríamos. Por exemplo, costumamos associar a realização do R retroflexo como o “R caipira”; daí derivamos uma série de outras categorização: é um traço linguístico associado ao interior de São Paulo e de pessoas com menos escolarização. Esse estereótipo circula na sociedade, nas personagens Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, ou Chico Bento, da Turma da Mônica. Na vida real, a associação não é assim direta, e dependendo de quem está falando e de onde, o significado é diferente, mobilizando diferentes campos indexicais relacionados à localização geográfica: enquanto pessoas de São Paulo consideram a realização do R retroflexo como caipira e simples, pessoas de fora da comunidade associam o traço aos valores de solidariedade e sinceridade. Este é apenas um exemplo.

    Revista ECOS: É possível, então, compreender a identidade por meio do estudo da linguagem, certo? O que se deve observar na linguagem para se chegar a conclusões sobre um determinado grupo?

    Raquel Freitag: No campo da sociolinguística, há várias vertentes de estudo que contribuem para o desvelamento das associações entre traços linguísticos e perfis sociais, assim como seus efeitos na construção e na performance das identidades linguísticas. A primeira coisa que precisamos ter em mente é que sempre teremos uma visão parcial e recortada de uma dinâmica de interação complexa e multimodal. Por isso, sempre é importante confrontar outras fontes de abordagem. Existem técnicas diretas, que são aquelas em que abordamos diretamente as pessoas sobre a questão, perguntando o que ela pensa, o que ela acha, a que ela associa determinado traço da língua. Diferentes instrumentos podem ser utilizados para isso, desde a técnica de entrevistas com perguntas semi-dirigidas sobre o tema até instrumentos e escalas objetivas. Apesar de ser uma das técnicas mais rápidas e com potencial de atingir um grande número de participantes, possibilitando generalizações, um ponto negativo desta abordagem é as pessoas costumam se policiar, mantendo-se dentro das respostas socialmente desejáveis. Outra abordagem é a que se vale de técnicas indiretas, com estratégias de pesquisa encoberta, em que se pede para a pessoa realizar uma tarefa sem alertá-la que o objeto manipulado é um traço linguístico, com o objetivo de verificar a sua reação. Por exemplo, uma mesma pessoa gravar duas vezes uma mesma fala, um pedido de emprego, por exemplo, e, em uma das gravações, realizar os traços de aspiração, e, na outra gravação, realizar todos os R como retroflexos. Depois, pedir para pessoas decidirem para quem dariam o emprego. Subjacente à escolha está o juízo de valor associado aos traços linguísticos manipulados, e também o modo como a pessoa que está julgando fala. Esta é uma abordagem mais complicada, pois envolve a elaboração de situações experimentais balanceadas, para evitar que outras variáveis interfiram no julgamento, além de envolver situações eticamente sensíveis (expor uma pessoa a uma situação cujo resultado é a expressão de preconceito). Outra abordagem é observar o tratamento societal: como aquele traço linguístico circula nas mídias e no planejamento linguístico de uma dada comunidade? Estas pistas só aparecem em traços linguísticos que estão no limite da consciência, o que também limita o escopo da abordagemA combinação de abordagens direta, indireta e societaltem potencial de desvelar a constituição identitária de traços da língua.

    Revista ECOS: Qual o papel da linguagem na formação e na afirmação de um dado grupo social? Como ela interage com as pressões sociais nesse processo?

    Raquel Freitag: Pela perspectiva da cognição social, a língua é a expressão da construção social, é pela língua que somos categorizados no mundo. Em uma sociedade multifacetada como a sociedade brasileira, não podemos nos levar pela categorização de que existe uma língua única. Diferentes grupos expressam suas identidades por diferentes variedades linguísticas. Historicamente, as contribuições de outras línguas foram sendo apagadas, o que vai invisibilizando identidades. Uma variedade linguística que está associada a um grupo de prestígio e poder, é alçada a uma modelo de referência, como se fosse a língua. E o que for diferente desta variedade é considerado errado, feio, vulgar, enveredando para categorização de quem não tem esses traços linguísticos considerados de prestígio. O resultado é o preconceito e a discriminação. O reconhecimento de que o Brasil é multilíngue e mesmo no português que é falado há diferentes matizes, é o primeiro passo para uma política de respeito linguístico

    Revista ECOS: Acaba ficando claro que, numa mesma comunidade de fala, existe uma grande diversidade de identidades possíveis. Mas quando uma pessoa participa de mais de uma comunidade? Como isso tende a afetar a formação da sua identidade?

    Raquel Freitag: Um conceito que tem sido adotado na sociolinguística para lidar com a mobilidade a transição entre diferentes grupos é o de comunidades de práticas. No nosso dia a dia, nos envolvemos em diferentes grupos: o grupo da academia, o grupo do trabalho, o grupo da família, e assim por diante. E nesse processo nós carregamos traços de um grupo a outro. Um contexto bem característico é o de entrada na Universidade, e como os traços linguísticos do grupo de origem vão sendo conformados pelas normas do grupo. Coordeno um projeto que estuda esse processo na Universidade Federal de Sergipe: com o passar do tempo, estudantes na universidade modificam a forma como falam, se adequando às normas da comunidade, e quanto mais envolvidos nas práticas da universidade, mais expressiva é a conformação da nova norma. Pela cognição social, são as relações endogrupo e exogrupo: estar em um grupo e querer pertencer a ele nos faz incorporar traços que nos identifiquem, que nos categorizem como pertencentes ao grupo. E o contrário também ocorre. Tendemos a minimizar as diferenças dentro do grupo e amplifica-las fora do grupo. 

    Revista ECOS: Falando em tensão, nos últimos anos, vimos um grande aumento nos conflitos entre diferentes grupos, mas também há um senso de acolhimento e empoderamento quando alguém passa a fazer parte de um. Para você, a linguagem tem sido usada mais como arma de segregação ou como ferramenta de união?

    Raquel Freitag: Se a língua é uma pista para a categorização, em princípio, o processo leva a uma segregação. Tratei disso no meu livro Não existe linguagem neutra! Gênero na sociedade e na gramática do português brasileiro. A partir do momento que uma marca linguística é utilizada, seremos categorizados por conta desta marca. Um domínio da língua que historicamente esteve estável, que é a marcação binária de gênero, dá uma ideia de suposta união, ou naturalização, ou neutralidade. Mas essa neutralidade é apenas aparente: há uma conformação da regra. Sempre tomamos partido, seja conformando ou confrontando a norma. Como linguista, nesse momento da mudança, a sensibilização de que há uma regra subjacente a uma escolha, mesmo que inconsciente ou naturalizada, é nosso papel na sociedade.

    Revista ECOS: Na prática, quer dizer, no dia a dia de alguém, quais os benefícios de aprender uma nova língua?

    Raquel Freitag: Eu poderia dizer que apender uma nova língua é abrir mundos. Mas, no cenário brasileiro, queria dizer que aprender uma nova língua é gerar uma reserva cognitiva para o envelhecimento. Recomendo fortemente Tempo cognitivo e tempo social nas aulas de inglês para a envelhescência e terceira idade para entender esse tema.

    Revista ECOS: Você conhece a canção “Disseram que voltei americanizada” da Carmen Miranda? Levando em consideração tudo o que conversamos até agora, você poderia fazer um comentário sobre a canção? Se quiser deixar uma última mensagem para os nossos leitores, será muito bem-vinda.

    Raquel Freitag: Esta é uma excelente oportunidade para discutir estrangeirismos, mais especificamente, as ideologias subjacentes aos seus usos. A canção “Disseram que eu voltei americanizada” é de 1940, e já naquela época o tema estava em voga. Esse tema vai e volta na nossa sociedade. Em 1999, por exemplo, um projeto de lei conhecido como Lei dos estrangeirismos foi proposto, mas não emplacou. Dez anos depois, um projeto de lei estadual, que obrigava a tradução de qualquer expressão estrangeira com equivalente em língua portuguesa no estado do Rio Grande do Sul, foi proposto novamente. E, 20 anos depois, outro projeto de lei tentando proibir nomear empresas brasileiras com expressões em língua estrangeira com a justificativa de que o nome estrangeiro pode causar constrangimentos foi proposto. Mas a reflexão apresentada na canção diz respeito ao fato da perda da identidade; e não é só em língua estrangeira que isso acontece. Com as mobilidades que caracterizam o mundo contemporâneo, é cada vez mais difícil encontrar uma pessoa que nasceu, cresceu e viveu no mesmo lugar; e hoje, mesmo sem sair do lugar, as diferentes culturas chegam até nós pela conectividade. Com isso, o estereótipo da pessoa que tem uma fala típica, característica e autêntica vai se diluindo. E as pessoas não são mais percebidas, avaliadas, julgadas, enfim, categorizadas numa relação tão direta. As relações são complexas, envolvendo muitos fatores contextuais, o que torna a abordagem sociolinguística igualmente complexa no estudo das identidades linguísticas.

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