Linguística para todos

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  • Linguagem e identidade

    Se alguém te fizesse uma pergunta como “o que você é?”? É provável que você respondesse algo como “Sou psicólogo”; “Engenheira”; “Músico”; “Poeta”; “Palhaça”; “Surfista”; “Artista”; “Swiftie”, “Crente”; “Travesti”; “Mãe”… “Eu sou um fardo”; “Eu sou um curioso”; “Eu sou feliz”. Com isso, você estaria expondo, isto é, pondo para fora, o que se passa dentro de você. Essa, que alguns linguistas podem chamar de emotiva ou expressiva, é uma das funções da linguagem, a de traduzir para o outro o nosso mundo interno. Acontece que dizer o que “eu” sou pode também dizer o que não sou, ou o que o outro é.  Por exemplo, se digo que sou de direita, estou dizendo que pertenço a um grupo de pessoas que pensam parecido comigo em termos políticos, ao mesmo tempo em que acabo comunicando que sou diferente das pessoas de esquerda. Se sou preto, não sou branco; se sou rei, não sou súdito; se sou talarico, não sou amigo; se sou padre, não sou casado (até onde se saiba…). Para cada “eu”, existe um “tu”, existe um “nós” e existe um “eles”. E, quando opomos essas palavras, essas categorias, quando nós as comparamos, além de produzirmos diferença, também produzimos identidade. Com essa palavra sendo tão falada, tão carregada de sentido e cada vez mais relevante nas discussões atuais e no fazer social e político, acaba sendo bastante útil e importante entender um pouquinho melhor dele. Assim, decidimos trazer para o nosso número de abertura uma exploração ampla, esclarecedora e instigante sobre como conversam identidade e linguagem, assim como a importância que cada uma tem para o fazer-se da outra.

    Imagine a seguinte cena: você está em uma festa, conhecendo novas pessoas e tentando se enturmar. Tudo vai bem até que alguém faz uma pergunta simples, do tipo “De onde você é?”. Essa pergunta aparentemente inocente pode criar um momento tenso, pois depende muito da sua resposta. Você poderia dizer algo como “Sou de São Paulo”, “Nasci no Rio de Janeiro, mas cresci em Curitiba” ou até mesmo “Minha família é de Belo Horizonte, mas eu me considero uma cidadã do mundo”. Cada uma dessas respostas transmite um aspecto diferente da sua identidade.

    A língua que usamos, o sotaque que carregamos e as expressões que escolhemos para nos comunicar estão intimamente ligados à nossa identidade. Quem somos, de onde viemos e como nos vemos no mundo são profundamente influenciados pela maneira como nos expressamos. É impressionante como algo tão simples quanto a forma de responder a uma pergunta aparentemente simples pode revelar tanto sobre nós. Mas afinal, por que a linguagem tem tanto poder sobre a nossa identidade? 

    Para responder à pergunta, é importante reconhecer que a língua não é apenas um conjunto de regras gramaticais e vocabulário. Ela é muito mais do que isso – a linguagem é a expressão viva e pulsante da nossa cultura, história e experiências. Cada palavra que pronunciamos, cada gíria que utilizamos e cada metáfora que empregamos carrega consigo uma riqueza de significados e referências que nos conectam a uma determinada comunidade.

    Imagine, por exemplo, alguém que nasceu e cresceu no sul do Brasil. Essa pessoa provavelmente usará expressões típicas da sua região, como “tchê”, “guris” e “chimarrão”. Essas palavras não apenas facilitam a comunicação dentro do seu círculo social, mas também ajudam a definir a sua identidade cultural. Elas são como um passaporte linguístico que a conecta a uma tradição, a um modo de ser e a uma forma de enxergar o mundo.

    Da mesma forma, um indivíduo que tenha crescido em uma família de origem indígena carregará em sua forma de se expressar os vestígios dessa raiz ancestral. Suas palavras, entonações e metáforas serão permeadas por uma visão de mundo única, que o ajuda a se reconhecer como parte integrante de uma comunidade específica.

    Mas a influência da linguagem na identidade vai além das particularidades regionais e culturais. Ela também se manifesta na maneira como nos expressamos em contextos sociais diferentes. A linguagem que utilizamos em cada situação reflete diferentes facetas da nossa personalidade.

    Ao ajustar nosso modo de falar de acordo com o contexto, estamos, na verdade, revelando quem somos e como nos enxergamos. Podemos adotar um registro mais formal e imponente para transmitir uma imagem de competência e seriedade profissional. Ou então, podemos nos expressar de maneira mais informal e descontraída para demonstrar proximidade e camaradagem entre amigos.

    Essa habilidade de adaptar nossa linguagem é um reflexo da nossa capacidade de assumir múltiplas identidades, de acordo com as demandas de cada situação. Somos capazes de moldar nossa expressão verbal para nos adequar a diferentes papéis sociais, sem, no entanto, perder nossa identidade. Mas faz sentido esse apego todo à identidade? Para o sociólogo britânico-jamaicano Stuart Hall (1932-2014), talvez não. A identidade, no mundo pós-moderno, não é fixa, essencial ou permanente: “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”. (Hall, 2006, p. 13).

    “a identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”

    é definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘narrativa do eu’. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”. (Hall, 2006, p. 13)

    Você já parou para pensar no quão reveladora pode ser a sua maneira de falar? O sotaque que carregamos diz muito sobre quem somos e de onde viemos. É impressionante como algo tão sutil quanto a entonação de uma palavra ou a pronúncia de uma vogal pode transmitir informações tão ricas sobre a nossa identidade.

  • Artigo de Teste – Modelo Entrelinhas

    Artigo de Teste – Modelo Entrelinhas

    Nenhum pai ou mãe senta um bebê de oito meses para explicar onde termina uma palavra e começa outra. Ainda assim, antes de completar um ano de vida, a maioria das crianças já consegue distinguir os “pedaços” de som que formam palavras dentro do fluxo contínuo e ininterrupto da fala adulta — uma fala que, aos ouvidos de quem ainda não domina o idioma, soa como um único fio de ruído, sem pausas nítidas entre uma palavra e outra.

    Como isso é possível? A resposta, surpreendentemente, não tem nada a ver com ensino explícito. Tem a ver com estatística.

    Em 1996, as pesquisadoras Jenny Saffran, Richard Aslin e Elissa Newport publicaram na revista Science um estudo que se tornaria um marco na psicologia do desenvolvimento. Elas expuseram bebês de oito meses a um fluxo artificial de sílabas sem pausas, sem entonação, sem qualquer pista sonora óbvia de onde uma “palavra” começava ou terminava — apenas uma sequência monótona de sons.

    Depois de apenas dois minutos de exposição, os bebês já reagiam de forma diferente quando ouviam combinações de sílabas que haviam aparecido juntas com frequência (as “pseudopalavras”) em comparação com combinações que nunca haviam ocorrido juntas na mesma ordem. Em outras palavras: em duzentos segundos, os bebês haviam calculado, sem perceber, quais sílabas costumavam vir juntas e quais não.

    Esse cálculo é o que os cientistas chamam de aprendizagem estatística: a capacidade de extrair regularidades e probabilidades do ambiente sem instrução direta. Não é exclusiva da linguagem — está por trás de como aprendemos a reconhecer rostos, prever movimentos e até tocar um instrumento —, mas foi na aquisição de linguagem que ela foi identificada pela primeira vez.

    A explicação técnica é mais elegante do que parece à primeira vista. Dentro de uma língua, certas sílabas aparecem juntas com muito mais frequência do que outras. Pense na palavra “bonita”: as sílabas “bo” e “ni” aparecem juntas sempre que dizemos essa palavra, mas a sílaba final “ta” pode ser seguida por praticamente qualquer som, dependendo da palavra seguinte na frase.

    Esse padrão gera o que pesquisadores chamam de probabilidade de transição — a chance de uma sílaba B vir logo depois de uma sílaba A. Sílabas dentro da mesma palavra têm probabilidade de transição alta; sílabas que ficam nas bordas entre duas palavras diferentes têm probabilidade de transição baixa, porque a segunda palavra pode ser substituída por várias outras.

    O que o estudo de Saffran e colegas mostrou é que bebês são extraordinariamente sensíveis a essa diferença estatística — mesmo sem qualquer noção prévia do que é uma “palavra”. Eles não estão aprendendo o significado das palavras nesse estágio: estão aprendendo onde as palavras provavelmente começam e terminam, um primeiro passo essencial antes de qualquer outro tipo de aprendizado linguístico.

    Descobertas mais recentes empurraram essa história ainda mais para trás no tempo. Um estudo conduzido por Benedetta Mariani, Judit Gervain e colegas, publicado na revista Science Advances, monitorou por eletroencefalograma (EEG) a atividade cerebral de recém-nascidos com apenas um a cinco dias de vida. As crianças, filhas de mães francófonas, mostraram um padrão de organização temporal na atividade cerebral mais elevado depois de ouvir fala no idioma que haviam escutado ainda dentro do útero — evidência de que algum tipo de aprendizado linguístico já estava em curso antes mesmo do parto.

    Isso não significa que bebês nascidos sem essa exposição prévia — como crianças adotadas internacionalmente ou bebês surdos — estejam em desvantagem permanente. Como as próprias pesquisadoras explicam, a experiência linguística pré-natal parece servir como um andaime inicial, um ponto de partida que facilita o processo, mas não determina sozinho o destino do desenvolvimento da linguagem.

    Um dos aspectos mais reveladores dessa área de pesquisa é o contraste com a inteligência artificial. Sistemas de processamento de linguagem natural — inclusive os modelos por trás de assistentes conversacionais — em geral só conseguem aprender padrões linguísticos complexos depois de serem expostos a volumes gigantescos de texto, muitas ordens de grandeza maiores do que qualquer criança humana ouve em toda a infância.

    Um bebê, por outro lado, extrai regularidades gramaticais robustas a partir de uma quantidade de “dados” comparativamente minúscula — e sem qualquer rótulo, correção ou feedback explícito indicando o que está certo ou errado. Essa eficiência notável é hoje um dos maiores enigmas (e uma das maiores fontes de inspiração) para pesquisadores que tentam construir modelos computacionais de aquisição de linguagem mais próximos do funcionamento humano.

    A aprendizagem estatística não desaparece quando a infância termina — mas parece perder parte de sua eficiência natural. É um dos fatores frequentemente citados para explicar por que aprender um segundo idioma na vida adulta costuma exigir mais esforço consciente e instrução formal do que a aquisição da língua materna, adquirida quase sem esforço perceptível na primeira infância.

    Entender esse mecanismo, porém, vai muito além da curiosidade acadêmica. Ele tem implicações diretas para o diagnóstico precoce de dificuldades de linguagem, para o desenho de políticas de educação bilíngue e até para o modo como interagimos com bebês no dia a dia — cada palavra dita a uma criança, mesmo antes dela nascer, parece estar, silenciosamente, alimentando um cálculo estatístico em curso.


    Fontes: Saffran, Aslin & Newport (1996), Science; Mariani, Gervain et al., Science Advances; American Association for the Advancement of Science (AAAS).

  • Bebês estatísticos

    Bebês estatísticos

    Bebês estatísticos

    Depois de apenas dois minutos de exposição, os bebês já reagiam de forma diferente quando ouviam combinações de sílabas que haviam aparecido juntas com frequência (as “pseudopalavras“) em comparação com combinações que nunca haviam ocorrido juntas na mesma ordem. Em outras palavras: em duzentos segundos, os bebês haviam calculado, sem perceber, quais sílabas costumavam vir juntas e quais não.

    Esse cálculo é o que os cientistas chamam de aprendizagem estatística: a capacidade de extrair regularidades e probabilidades do ambiente sem instrução direta. Não é exclusiva da linguagem — está por trás de como aprendemos a reconhecer rostos, prever movimentos e até tocar um instrumento —, mas foi na aquisição de linguagem que ela foi identificada pela primeira vez.

    A explicação técnica é mais elegante do que parece à primeira vista. Dentro de uma língua, certas sílabas aparecem juntas com muito mais frequência do que outras. Pense na palavra “bonita”: as sílabas “bo” e “ni” aparecem juntas sempre que dizemos essa palavra, mas a sílaba final “ta” pode ser seguida por praticamente qualquer som, dependendo da palavra seguinte na frase.

    Esse padrão gera o que pesquisadores chamam de probabilidade de transição — a chance de uma sílaba B vir logo depois de uma sílaba A. Sílabas dentro da mesma palavra têm probabilidade de transição alta; sílabas que ficam nas bordas entre duas palavras diferentes têm probabilidade de transição baixa, porque a segunda palavra pode ser substituída por várias outras.

    O que o estudo de Saffran e colegas mostrou é que bebês são extraordinariamente sensíveis a essa diferença estatística — mesmo sem qualquer noção prévia do que é uma “palavra”. Eles não estão aprendendo o significado das palavras nesse estágio: estão aprendendo onde as palavras provavelmente começam e terminam, um primeiro passo essencial antes de qualquer outro tipo de aprendizado linguístico.

    Descobertas mais recentes empurraram essa história ainda mais para trás no tempo. Um estudo conduzido por Benedetta Mariani, Judit Gervain e colegas, publicado na revista Science Advances, monitorou por eletroencefalograma (EEG) a atividade cerebral de recém-nascidos com apenas um a cinco dias de vida. As crianças, filhas de mães francófonas, mostraram um padrão de organização temporal na atividade cerebral mais elevado depois de ouvir fala no idioma que haviam escutado ainda dentro do útero — evidência de que algum tipo de aprendizado linguístico já estava em curso antes mesmo do parto.

    Isso não significa que bebês nascidos sem essa exposição prévia — como crianças adotadas internacionalmente ou bebês surdos — estejam em desvantagem permanente. Como as próprias pesquisadoras explicam, a experiência linguística pré-natal parece servir como um andaime inicial, um ponto de partida que facilita o processo, mas não determina sozinho o destino do desenvolvimento da linguagem.

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