Existe uma pergunta simples, mas profundamente inquietante, que nos acompanha ao longo de toda a vida: quem somos nós? Para tentar respondê-la, costumamos recorrer a documentos oficiais, fotografias antigas, árvores genealógicas ou aos papéis sociais que desempenhamos no trabalho e na família. No entanto, a nossa essência mais profunda não está guardada em gavetas ou registros estáticos. Ela se revela toda vez que abrimos a boca, digitamos uma mensagem ou escolhemos uma palavra em detrimento de outra. A nossa verdadeira certidão de pertencimento é moldada pela nossa fala. A língua é o tecido invisível a partir do qual costuramos a nossa identidade perante o mundo.
Olhar para a linguagem sob a ótica da identidade nos obriga a abandonar a velha e confortável ideia de que as pessoas falam — ou deveriam falar — todas da mesma maneira. A variação linguística não é uma falha do sistema, um desvio gramatical ou um sintoma de falta de estudo; ela é a própria geografia humana expressa em sons. O nosso sotaque carrega o sotaque da nossa terra; as nossas gírias entregam a nossa geração; e o nosso ritmo de fala denuncia o grupo social com o qual dividimos as nossas vivências e afetos. A forma como usamos a língua é a nossa assinatura social, um espelho que reflete o nosso gênero, a nossa raça, a nossa classe e a nossa história.
Esta edição especial propõe um mergulho corajoso nas águas profundas e, muitas vezes, turbulentas dessa conexão. Afinal, em uma sociedade estruturalmente desigual, as escolhas linguísticas não são recebidas com neutralidade. O julgamento social que fazemos da fala alheia é, na verdade, um julgamento disfarçado sobre os corpos e as origens daquelas pessoas. Compreender o preconceito linguístico significa entender que, quando alguém estigmatiza o falar nordestino, a linguagem periférica, a fala travesti ou os dialetos de comunidades tradicionais, o alvo real do ataque não é o vocabulário, mas sim o direito daquelas identidades existirem e ocuparem espaços de prestígio e poder.
Nas páginas a seguir, trazemos um panorama rico e multidisciplinar para discutir essas fronteiras do pertencimento. Você encontrará artigos que debatem como a busca por reconhecimento de minorias sociais passa, obrigatoriamente, pela ressignificação de pronomes e nomenclaturas; ensaios sobre como os processos de migração e refúgio fraturam e reconstroem as identidades linguísticas; e entrevista com a profa. Raquel Freitag…
Nosso convite com este volume é para que você faça as pazes com a pluralidade da nossa língua. Que esta leitura sirva como um lembrete de que proteger a diversidade da nossa fala é, em última análise, proteger a dignidade humana daqueles que a utilizam. Afinal, silenciar a fala de alguém é apagar a sua própria história.
Desejamos a você uma leitura acolhedora e repleta de descobertas.